Ilé Àṣẹ Aládéí

Hierarquia (Ipò)

Introdução

A hierarquia dentro do Candomblé é primordial e de suma importância. O respeito e a submissão aos mais velhos e principalmente aos Zeladores e Zeladoras vem das nossas raízes, dos nossos descendentes africanos. Hierarquia e educação andam juntos, seja em uma casa de Candomblé ou na nossa vida fora da roça.

Não existe um Cargo - Ipô Ôrixá (Ipò Òrìṣà) entre Adjoiê (Ajòyè) - Ekedji (Èkéji) ou Ogãn (Ọ̀gá) que seja mais ou menos importante ou superior. Cada qual tem a sua importância e são tratados hierarquicamente em igualdade, apenas diferenciados pelo tempo de iniciação, com exceção de quando recebem os cargos de Babá Kekerê (Bàbá Kékéré) - Pai Pequeno da Roça, Iiá Kekerê (Ìyá Kékéré) - Mãe Pequena da Roça, Babá Ébé (Bàbá Ẹgbẹ́) - Pai Conselheiro ou Iiá Ébé (Ìyá Ẹgbẹ́) - Mãe Conselheira. Quando ocupados por uma Ajòyé (Ekedji), por um Ogãn ou até mesmo por uma ou um Ébón (Ẹgbọ́n) - Irmão ou irma mais velho, estes passam a ocupar um grau acima das demais Ajòyé (Ekedji), por um Ogãn ou até mesmo por um Égbon. Todas as Ajòyé (Ekedji), podem ser tratadas e chamadas por mãe e os Ogãn por pai.

A Família de Santo - Idilê Orixá (Ìdélé Òrìṣà)

Na Família se Santo respeita-se fielmente o tempo no Candomblé após a sua igbẹ̀rẹ̀ (ibéré) - iniciação. Um filho mais novo deve sempre dirigir-se ao mais velho sempre de maneira respeitosa. Em alguns casos essa situação se inverte, pois pode ocorrer de um filho com muito tempo de iniciação não ter Ipô Ôrixá (Ipò Òrìṣà) - Cargo ou Oiê (Oyè) - Dêká (Deká no Jeje) - título e um recém iniciado ser escolhido pelo Orixá para possuir um. Isso acontece mais frequentemente nos casos dos Ógã e Ajoyê (Ekedji).

Citamos a seguir alguns Cargos de Santo (Àwọn Ipò Òrìṣà) mais comuns nas casas de Candomblé, incluindo-se os dos novatos, que não são cargos, mas sim denominações.

Zelador de Orixá e Zeladora de Orixá - Babálorixá áti Iiálorixá (Bàbáloriṣà àti Ìyáloriṣà)

É o Sacerdote e Sacerdotisa do Candomblé - Auorô ókunrin áti Auorô obìnrin (Àwòrò ọkùnrin àti Àwòrò obìnrin)

Composição da palavra: Bàbá + lo (ní) + Òrìṣà (pai + ter, possuir + Orixá) ou Ìyá + lo (ní) + Òrìṣà (mãe + ter, possuir + Orixá). Literalmente o Pai ou Mãe que possui o conhecimento das coisas do Orixá e quem consequentimente zela (cuida) pelos Orixás dos filhos.

É o Sacerdote ou a Sacerdotisa do Candomblé. É o maior cargo na hierarquia do Candomblé. São chamados de Pai e Mãe. Erradamente, são chamados de Pai de Santo e Mãe de Santo, pois santo não tem pai. Esse cargo somente poderá ser exercido após a obrigação dos 7 anos (Ojúùṣe Ọ́dún Méje Oduéje), quando o Iiauô / Adoxu (Ìyàwó / Adóṣù) obtém a autorização para abrir a sua casa.

É muito importante salientarmos que nem todo iniciado será um dia um Zelador ou Zeladora.

Pai Zelador do axé e Mãe Zeladora do axé - Bàbálaxé e Iiálaxé (Bàbálaṣẹ e Ìyálaṣẹ)

Composição da palavra: bàbá, ìyá + àṣẹ (pai, mãe + axé).

É o Pai ou Mãe zeladora do Axé. São chamados de Pai ou Mãe.

Padrinho (Bàbá Ìsàmì) e Madrinha (Ìyá Ìsàmì) do iniciado

Os iniciados possuem um Padrinho (Bàbá Ìsàmì) e uma Madrinha (Ìyá Ìsàmì). Com o passar do tempo tornou-se hábito chamá-los de Pai Pequeno (Bàbá Kékeré) e Mãe Pequena (Ìyá Kékeré) pelos seus afilhados devido ao fato de serem considerados como substitutos dos Zeladores e Zeladoras na ausência ou falta desses. Na realidade, antigamente, eram chamados de Pais menores, que eram Padrinhos, e traduziram para Bàbá Kékeré e Ìyá Kékeré erradamente e traduzindo-se para o português foram tidos como Pais Pequenos. São chamados de Pai e Mãe por seus afilhados, e como qualquer Padrinho e Madrinha devem ser ser respeitados por seus afilhados como seus pais fossem. Mais um fato gerado pela tradição oral.

Pai Pequeno e Mãe Pequena - Babá Kekerê (Bàbá Kékéré) àti Iiá Kekerê (Ìyá Kékéré)

É o Pai ou Mãe pequenos da roça. Não devemos confundir com Bàbá Kékeré e Ìyá Kékeré de um iniciado, que são como Padrinho e Madinha do iniciado.

Pai Conselheiro e Mãe Conselheiro - Bàbá Ébé e Iiá Ébé (Bàbá Ẹgbẹ́ àti Ìyá Ẹgbẹ́)

Composição da palavra: bàbá / ìyá ẹgbẹ́ (pai / mãe + sociedade)

É um título que equivale a conselheiro e acessor do Bàbálórìṣà ou da Ìyálórìṣà e conselheiro dos filhos em geral. São chamados de Pai ou Mãe.

Iiámorô e Iiádagan (Ìyámórò àti Ìyádagan)

Cargos exclusivamente femininos. Ambos os cargos são para a realização do ritual de Ipadê (Ìpàdé) A Iiamorô é a responsavel e a Iiádagan sua auxiliar direta. A Iiádagan possui duas auxiliares chamadas Ótundagan e Ossidagan (Ọ̀túndagan e Òsìdagan). A Iiamorô é chamada de Mãe.

Mãe Criadeira - Adjibóna (Ajibọ́nãn)

Composição da palavra: a + jí + bí + ọ̀na (aquele que da caminho ao nascimento).

É a Mãe Criadeira. É chamada de Mãe. Acompanha o iniciado durante o seu recolhimento e vem a frente do Iiauô / Adoxú no dia do Ritual do nome - Orô Orukó (Orò Orúkọ). Também é conhecida como Odjubonã (Òjugbònà). Na ausência ou impedimento de uma mulher para essa função, a mesm pode ser substituida por um homem, o qual tem o mesmo título.

Pai e Mãe da pintura - Bàbá Éfun e Iiá Éfun (Bàbá Ẹfun àti ìyá Ẹfun)

É a o Pai ou Mãe do Éfun (Ẹfun), responsável pelas pinturas no ritual de iniciação - Orô ìbéré (Orò Ìgbẹ̀rẹ). É chamado de Pai ou Mãe.

Bàbálósãnin e Ìyálósãnin (Bàbálọsányin àti Ìyálọsányin)

São os colhedores e conhecedores das ervas ritualísticas e medicinais. Normalmente são filhos de Ósãins (Ọ̀sányìn). Também conhecidos como Ólósãnin (Ọlọ́sányin) (Dono do culto a Ósãnin. É chamado de Pai ou Mãe.

Cozinheira chefe - Ìiálásê (Ìyálásè)

Composição da palavra: ìyá + alá + sè (mãe + exprime posse + cozinha).

É a chefe da cozinha e pelas Onjẹ Àwọn Òrìṣà (comidas dos Orixás).

É um cargo exclusivamente feminino e pouco utilizado nas casas de Candomblé, o qual é substituído pelo cargo abaixo.

Cozinheira - Iiábasê (Ìyágbàsè)

Composição da palavra: ìyágbà + sè (senhora + cozinha).

É a responsável pela cozinha e pelas Onjẹ Àwọn Òrìṣà (comidas dos Orixás).

É um cargo exclusivamente feminino.

Ajudante da Cozinheira - Ìyábasê (Ìyábásè)

Composição da palavra: ìyá + bá + sè (mãe + ajuda + cozinha).

É a ajudante da Ìyábasê. A pronúncia é praticamente idêntica a Ìyágbàsè, porém o sentido é completamente diferente. Não é necessariamente um cargo, portanto, pode ser exercido por qualquer mulher da casa.

É um cargo exclusivamente feminino.

Adjoiê / Êkêdji (Ajòyè / Èkéjì)

É a responsável pela segurança física do rodante. É um cargo feminino e de grande respeito. Em casas tradicionais e antigas faz a obrigação de 1, 3, 5 e 7 anos e em casas mais novas é dispensado dessas obrigações. Não roda no Orixá em hipótese alguma. É chamada de Mãe. Adjoiê tem o mesmo significado que Ekedji, porém, nas Nações Ketu e Jeje respectivamente, porém o termo Ekedji é utilizado na grande maioria das casas de Nação Ketu. Uma curiosidade sobre a palavra Èkéjì é que o seu significado é "segunda" e a sua pronúncia correta é Êkêdji. Muitas pessoas pronunciam erradamente Ékédji, fato esse explicado devido ao sotaque regional da Bahia e devido ao Candomblé ser de tradição oral. Para exemplificar melhor, a palavra Elefante é pronunciada Éléfante pelos baianos. Esse exemplo não desmerece o sotaque baiano, muito pelo contrário, é um dos sotaques dos mais bonitos do Brasil.

Ógãn (Ọ̀gá)

É um cargo exclusivamente masculino, de destaque e de grande responsabilidade em uma casa de Candomblé. É chamado de Pai. Em casas tradicionais e antigas faz a obrigação de 1, 3, 5 e 7 anos e em casas mais novas é dispensado dessas obrigações. Não é rodante em hipótese alguma.

Se o Ógã for escolhido por algum Orixá é chamado de Ógã Suspenso e passa a ser Ógã Confirmado quando no término da sua feitura. O cargo de Ógã também pode ser determinado no jogo.

Odjubó (Ojúbọ)

Ógãn responsável pelo Odjubó (Altar, santuário). Também é conhecido por Pedjigãn (Pejigá - Jeje).

Apótun e Aposi (Apọ̀tún àti Apòsì)

Ógãns auxiliares diretos dos Zeladores e Zeladoras. Também são chamados de Apá Ótun (Apá Ọ̀tún) e Apá Osí (Apá Òsì) - Braço Direito e Braço Esquerdo. São tidos como os braços dos Babálorixás e Iialorixás

Axogun (Àṣògún)

Ógãn responsável pelo sacríficio e corte dos animais. Normalmente é um filho de Ògún e na ausência de ter um filho de Ògún é substituido por um filho de Óxóssi. Cargo masculino.

Possui o dom do sacrifício e corte dos animais.

Alábê (Alágbè)

Composição da palavra: Alá + agbè (aquele que tem poder ou comando sobre algo, indica posse + cabaça cortada no topo usada antigamente como vasilha ou em substituição aos atabaques) pelo fato de quando o Candomblé era altamente perseguido e proibido, os atabaques eram substituídos pela cabaça como instrumento musical.

Literalmente, aquele que tem o poder da cabaça, o senhor da cabaça, aquele que usa a cabaça como instrumento musical.

Cargo exclusivamente masculino.

É o Ógãn chefe dos tocadores de atabaque (chefe dos Ọ̀gá Nílù). Deve saber tocar todos os tipos de toques.

Ógãlú ou Ógãnilú (Ọ̀gálù tàbí Ọ̀gánílù)

Composição da palavra: Ọ̀gá + ní + ìlù (Ógãn no atabaque).

É o Ógãn tocador de instrumentos musicais.

Cargo exclusivamente masculino.

Irmão ou irmã mais velho - Ébón Orixá (Ẹ̀gbọ́n Òrìṣà)

É o irmão ou irmã mais velho de santo, título automático adquirido após a realização da obrigação de 7 anos, porém, todo irmão mais velho que nós não deixa de ser um Ébón e merece o nosso respeito.

Se uma pessoa é de outra casa ela é chamada somente de Ébon, se ela é da mesma casa é chamada de Ébonmi (Ẹ̀gbọ́nmi - Meu irmão mais velho ou minha irmã mais velha). Exemplo: Ẹ̀gbọ́n mi Joiá. (Minha irmã mais velha Joiá.).

Adoxú / Iiáuô (Adóṣú / Ìyàwó)

É o rodante recém iniciado. Embora a palavra signifique literalmente "esposa", ela é usada tanto para homem como para mulher. Também é chamado de Adóṣù (a + dá + òṣù (aquele que + portador + oxú). O recém iniciado somente é reconhecido como Iiauô / Adoxú após a sua iniciação e esta denominação irá acompanhá-lo até a obrigação de 7 anos.

Abíãn (Abíyán)

Composição da palavra: a + bí + iyán (aquele que + nasce + dúvida).

É o primeiro degrau na escala hierárquica do Candomblé. É o iniciante, aquele que está conhecendo a casa e recebendo os seus primeiros ensinamentos. Participa dos afazeres da casa e também de determinados rituais.

Irmão ou irmã de Santo - Arakunrin Orixá tabí Arabinrin Orixá (Arákùnrin Òrìṣà tàbí Arábìnrin Òrìṣà)

É o irmão ou irmã de santo que frequentam a mesma casa. Podem ser mais velhos ou mais novos e iniciados por Zeladores ou Zeladoras diferentes. É o nome comum de como chamamos de irmão.

Arakunrin Abúro Orixá tabí Arabinrin Abúro Orixá (Arákùnrin Àbúrò Òrìṣà tàbí Arábìnrin Òrìṣà)

É o irmão ou irmã de santo mais novo.

Arakunrin Axé tabí Arabinrin Axé (Arákùnrin Àṣẹ tàbí Arábìnrin Àṣẹ)

É o irmão ou irmã feitas numa mesma casa, porém, por Bàbálórìṣà ou Ìyálórìṣà difrentes.

Arakunrin Éni tabí Arabinrin Éni (Arákùnrin Ẹni tàbí Arábìnrin Ẹni)

É o irmão ou irmã de esteira, que foi iniciado juntamente e data de saída igual, porém, em alguns casos, com data de saída diferente devido a peculiaridade de cada Orixá.

Parentes de Santo - Ará Ilê Orixá (Ará Ilé Òrìṣà)

São os parentes de santo, tios, tias, primos, primas e etc. Se após a iniciação renascemos, logo, temos novos parentes e estes são chamados de parentes de santo. Citando como exemplo, se um Babálorixá é pai de determinado filho de santo e este Babálorixá é irmão de santo de uma Iialorixá, logo, os filhos dessa Ìyálórìṣà são primos desse Filho de Santo.

Filho de Orixá - Ómó Orixá (Ọmọ Òrìṣà)

É o Filho de Santo. Muitos dizem que a pessoa somente é Filha de Santo após a iniciação. É claro que mesmo não iniciado existe um Orixá que "anda" com essa pessoa, mas literalmente ela somente e definitivamente é reconhecida como Ómó Orixá após a iniciação, quando o Orixá realmente passa a morar na orí do filho e consequentemente aproxima definitivamente os dois. Exemplificando, um Ómó Orixá é definitivamente um Filho de Orixá quando ele passar a ser um Possuidor de Orixá - Oloorixá (Olóòrìṣà). Da mesma forma que esse filho realmente passa a ser filho de um Zelador o Zeladora definitivamente após a sua iniciação.

Adorador de Orixá - Abórixá (Abọ̀rìṣà)

É a pessoa que frequenta uma casa de Candomblé, venera os Orixás, respeita mas não quer nenhum vínculo ou responsabilidade para com os Orixás e a casa.

Observações

- Um Iiauô ao passar a Ébón, mesmo que com mais anos de iniciada, jamais passará a frente na hierarquia de um Ogãn ou Ekedji, a menos que receba um título ou cargo superiores como por exemplo Mãe Pequena da roça.

- Na Dança alegre dos Orixás - Xirê Ôrixá (Ṣiré Òrìṣà), uma Ekedji iniciada recentemente dança na roda a frente dos Iiauô mais velhos ou até mesmo na frente de um Ébón, se este último não possuir um cargo superior ao de Ekeji. O mesmo deve ser respeitado em ocasião do cumprimento aos animais que serão sacrificados.