Ilé Àṣẹ Aládéí

Curiosidades

Introdução

O candomblé como foi dito anteriormente era de tradição oral, originalmente, mas precisamos acompanhar a evolução dos tempos, sempre respeitando a tradição. Antigamente nossso ancestrais não sabiam nem ler e nem escrever, portanto, tudo era passado oralmente. Essa oralidade fez com que se perdessse muito e outras foram distorcidas. Um Bábalorixá disse a seguinte marcante frase: "Se nós aprendemos errado, fazíamos errado. Mas hoje se aprendemos o certo, porque continuarmos a fazer errado?"

Alguns grandes erros

Misturas, ausência de acentuação ou acentuação errada

- Não devemos misturar Yorùbá com Português. Se não soubermos escrever corretamente em Yorùbá, estude, pesquise ou escreva em português.

Exemplos:

"João ti Ogun". Dois erros. Não se usa a palavra "ti" (de) entre dois substantivos. E se pudesse ser usado, não se mistura o "João" (nome de batisto e registro civil) com o "ti" (palavra em Yorùbá).

"João d' Ogun". Mais uma mistura e invenção. No idioma Yorùbá usa-se muito a elisão de palavras. Esse "d'" supostamente men de "de", ou seja, "João de Ogun".

Escreva simplesmente "João de Ogun".

- Ausência de acentuação, acentuação misturada ou errada

Exemplo:

"Asé fun o!". Ausência do acento na palavra "Àṣẹ" e mistura de Yorùbá com Português. Tradução da frase errada: "Coador, filtro ou peneira para você!"

Escreva simplesmente "Axé pra você!"

Palavras e frases desconexas

Algumas pessoas falam algo em Yorùbá, pensando que estão dizendo algo, mas estão dizendo algo totalmente sem fundamento.

Exemplos:

- "Essa é minha Ébómi!". Tradução: "Essa é minha minha Ébón!". Repare que existem duas vezes a palavra Ébón na tradução dessa frase "misturada". Basta falar "Essa é minha Ébon!"

- "Exú é mo júbá!". Tradução: "Exú vocês eu o respeito!". Mais uma frase sem nexo. O correto é "Exú mo jubá!". "Exú, eu o respeito!"

- Pai Ogã. É a mesma coisa que falar Pai Babá, ou seja, Pai Pai.

Desconhecimento da própria Nação

As três mais conhecidas nações são a Nação Jeje (os Fon), Kétu (os Yorùbás) e a Angola (os Bantos). Algumas pessoas se dizem da Nação Alakêtu (Alákétu) (e ainda pronunciam errado como Alaketú). Comprovadamente não existe tal nação. Alákêtu (Alákétu) é um título do soberano da cidade de Kétu (rei) e a denominação dada pelos homens brancos aos escravos chegados ao Brasil vindos daquela região. Portanto, não é o nome de nenhuma nação.

Erros comuns de pensamento e atitudes

- Alguns praticantes de outras religiões costumam falar “Meu irmão de Santo” ou "Meu Pai de Santo". Tem irmão de Santo quem é feito no Santo ou é de uma casa de Candomblé e não existe Pai de Santo pois Santo não tem pai humano.

- Ter feito bóri (bọrí) não significa nenhum grau hierárquico dentro do Candomblé.

- Fazer muitos bóri não significa que não precisa ser iniciado por ser considerado como tal. Bóri é uma coisa e iniciação é outra completamente diferente e os procedimentos também.

- Algumas pessoas dizem ter feito um "Bóri calçado" e decido a esse procedimento é "como se feitas fossem". Não achamos nenhuma definição para "Bóri calçado" e "Como se feitas fossem". Ou a pessoa é iniciada ou não é, simples.

- Algumas pessoas ao dar um bóri com outras pessoas dizem que fazem parte de um barco. Não existe barco ao se dar um bória. Barco é dito na iniciação.

- Candomblecista não é cristão. Ser cristão é crer e adorar a Jesus Cristo. Candomblecista crê e adora os Orixás.

- Candomblecista não tem Anjo da Guarda. Quem tem Anjo da Guarda é católico. Candomblecista tem Orí, Orixá individual e único que sempre está conosco.

- O Sincretiso religioso infelizmente ainda está impregnado nas mentes de muitos Candomblecistas. Oxalá não é Jesus Cristo, Ómólu não é São Lázaro e etc. Devido a nossa religião ser datada de aproximadamente 8.000 A.C., acredito que Jesus Cristo poderia até ser filho de Oxalá (espiritualmente falando).

- "Meu Orixá!" O Orixá não é meu e sim eu sou do Orixá. É talvez uma forma costumeira de falar, mas o correto seria "O Orixá que reside na minha cabeça!"

- O correto de se chamar um irmão ou irmã mais velhos de outra roça é somente Ébón (Ẹ̀gbọ́n). Da mesma forma que um irmão ou irmã mais velho deve se aprentar em outra casa é também Ébón. Ébón mi (Ẹ̀gbọ́n mi) é o título de um irmão ou irmã mais velho da nossa casa e deve ou pode ser chamado assim por seus irmãos e irmãs, nunca pelos de outra casa, que devem dser chamados, repito, por Ébón (Ẹ̀gbọ́n).

- Algumas pessoas, principalmente Zeladores e Zeladoras, talvez com o intuito de mostrar e diferenciar-se dos Ogãn e Ekedji, chamam esses de "Pai Ogãn" e "Mãe Ogãn". Uma invenção absurda principalmente porque o verdadeiro e bom Ogã e Ekejdi tem a ciência que jamais passarão a frente dos Zeladores e Zeladoras. Se estes não tem essa ciência não servem para ser Ogãn ou Ekejdi. Chamá-los dessa forma é o típico pleonasmo. Para se entender melhos. Se Ogã é pai, o chamando de "Pai Ogã" é mesma coisa que chamar um zelador de "Pai Babá" (Pai Pai).

- Em algumas casas Orixá roda no Iiauô e diz que o filho ou filha tem cargo de Zelador e quer que ele receba o título naquele momento, mesmo antes da obrigação de 7 anos. Orixá é sábio. A princípio jamais falaria isso e mesmo que falasse caberia ao Zelador ou Zeladora desse ou dessa Iiáuô explicar ao Orixá que não é o momento, que o cargo será dado no momento da sua obrigação de 7 anos.

- Algumas casas de Candomblé estão dando o cargo de Ógãnilú (Ọ̀gálù ou Ọ̀gánílù) a mulheres. Totalmente inadimissível pois desde os primórdios dos tempos é um cargo exclusivamente masculino.

- Alguns Zeladores ou Zeladoras "entregam" o jogo de búzios para Ogãn e ou Ekedji, os quais podem até possuir a "mão" e do dom jas consultas, mas devido ao seu cargo não o podem exercer.

Pedidos de benção

Muitas pessoas, principalmente de outras religiões, teem o pedido de benção como "Mo tumbá" (Mo túmbá), o que nada mais é do que uma saudação (Eu o saúdo). O pedido de benção na Nação Jeje é Kolofé (Kolofẹ), na nação Kétu é Súre (Súre) ou Bukún (Bùkún) e na Nação Angola é Makuiu e não Mukuiu, que significa "coisa ruim". Na Nação Ketu o pedido de benção a Deus ou as divindades é Aúrê (Àwúre). Exemplo: Auurê Ólórun (Àwúre Bàbá mi Ayrà) - A bença meu Pai Ayrà.

As respostas são:

Nação Jeje: Mawu Kolofé (Mawu Kolofẹ) - Deus o abençoe ou "Nome do Vodun" Kolofé ("Nome do Vodun" Kolofẹ) - "Vodun" o abençõe.

Nação Kétu: Ólórun àuurê (Ọlọ́run àwúre) - Deus o abençoe ou "Nome do Orixá" auurê ("Nome do Orixá" àwúre) - "Orixá" o abençõe.

Nação Angola: Inzambi makuiu (Nzambi makuiu) - Deus o abençoe ou "Nome do nkise" makuiu ("Nome do inkise" makuiu) - "Inkise" o abençoe.

Muitos "inventam" uma resposta totalmente infundada, exemplo: "Ólórun kolofé Ólórun!". A tradução seria "Deus abençoe Deus!"

Devido a grande miscigenação desde a época dos kilombos, muitas casas "misturam" o pedido de benção, o que não caracteriza um erro pois o sentido da resposta é o mesmo.

Exemplo:

Pedido: Kolofé! (Jeje)

Resposta: Ólórun Kolofé (mistura Jeje com Ketu).

Nomes dos Orixás pronunciados e escritos erradamente

Muitos Zeladores, Zeladoras, praticantes do Candomblé e principalmente de outras religiões falam erradamente o nome dos Orixás. Pode parecer absurdo e narrativas falsas, mas realmente acontecem. Alguns exemplos:

- Óbaluayê (Ọbaluàiyé) (um título do Orixá Ómólu (Ọmọlu)). Pronunciam como Abaluaiê.

- Oxumarê (Òṣùmàrè). Pronunciam Oxumaré ou Oxumáre.

- Óssãin (Ọ̀sányìn). Pronunciam como Osãnha.

Caminhos e títulos dos Orixás e Orixás cultuados erradamente

Não existe "qualidade" dos Orixás, e sim caminhos. Qualidade é gordo ou magro, baixo ou alto e etc. Caminhos são determinadas fases da vida do Orixá e que em alguns casos lhes renderam títulos ou personalidade naquele momento da sua vida.

Exemplo: Xangô Óbá Kossô - Título dado a Xangô por ocasião da conquista da cidade de Kossô.

É totalmente errado falar em "Orixá velho e novo".

Exemplos: Oxaguiãn não é um Oxalá novo e sim um Orixá totalmente independente. Oxalá é pai de Oxaguiãn. Agandjú não é Xangô novo e sim um Orixá independente. É o irmão mais novo de Xangô.

Esses fatos deram-se devido a perda dos conhecimentos dos cultos a determinados Orixás. Mas esses cultos existem, portanto, porque não resgatá-los.

- Alguns se dizem filho de Odé (Ọdẹ). Não existe Orixá chamado Odé. Odé é a família dos caçadores, que é imensa, assim como a de Dãn (Dan) na Jeje. Poderíamos até falar: "Eu sou filho de Ódé Óxóssi" ou seja, "Eu sou filho do caçador Óxóssi"..

Alguns Orixás são cultuados erradamente no que se diz respeito a seus feitos, suas características e seus domínios:

- Xangô - Orixá dos raios e trovões. Erradamente cultua-se como o Orixá da justiça. Xangô fazia a justiça a seu modo. Confundem com o fato dele não gostar de mentiras, matava os mentirosos. "Roubou" a até então esposa de Ogún, Óyá. Como poderia ser justo se cometeu tal ato? Dizem que Xangô era avarento. Como poderia ele ser avarento se gostava de comer e beber do melhor, o que lhe custava caro. E no caso de ter conquistado Óxum oferecendo a ela riquezas? Não podemos confundir que Xangô tenha sentimentos ligados à justiça com ser o Orixá da justiça.

- O poder do fogo é dado a Xangô erradamente. O poder do fogo pertence a Ayrà.

- Iemódjá - Divindade das ondas do mar. Cultuada como a Divindade dos mares, da praia em si, sendo que o Orixá dos mares e oceano é Olôkun (Olókun), inclusive é a mãe de Iemódjá, que ainda tem como filhas Adjê Xalúga (Ajé Ṣàlúgà) e Ayê (Àyè), Divindades também ligadas ao mar. Portanto, quando vamos a praia podemos saudar Iemódjá, porém, devemos primeiramente saudar Olôkun.

Outros Orixás tiveram seus nomes alterados, devido a fusão nos cultos, com o de outros Orixás:

- Xangô (Ṣàngó) - Xangô Dada (Ṣàngó Dàda), Xangô Agandjú (Ṣàngó Aganjú), Xangô Ayrá (Ṣàngó Ayrà). Todos são Orixás distintos. Dada Ajaká (Dàda Àjàká) e Agandjú (Aganjú) são irmãos de Xangô (Ṣàngó), filhos de Órãnmyãn (Ọ̀ránmíyàn). Ayrà (Ayrà) é outro Òrìṣà e não tem nenhum grau de parentesco com Xangô (Ṣàngó).  Ayrá (Ayrà) era ministro e o homem de confiança de Xangô (Ṣàngó), que se tornou esse homem devido a Ayrá (Ayrà) possuir o segredo do fogo, segredo esse que muito interessava a Xangô (Ṣàngó). Dizem que Ayrá (Ayrà) é o Xangô (Ṣàngó) Velho. Pura inverdade. Ayrá (Ayrà) carregou Oxálá nas costas. Sendo Ayrá velho, como poderia ele carrega-lo?

Pai Pequeno e Mãe Pequena

Uma grande confusão criou-se em torno dos Pais e Mães pequenosdevido a tradição oral.

Antigamente existiam o cargo ou os cargos de Bàbá Kékéré e ou Ìyá Kékéré para a casa de Candomblé, que eram os substitutos do Zelador ou Zeladora quando esses estavam ausentes.

Existiam também os padrinhos do iniciado. O Babá Isâmi - Padrinho (Bàbá Ìsàmì) e a Iiá Isâmi - Madrinha (Ìyá Ìsàmì) tinham a função de acompanhar a vida do iniciado, desde o seu recolhimento, e substituir o Zelador ou Zeladora na falta deles, até mesmo em caso de falecimento do mesmo.

As palavras Bàbá Ìsàmì e Ìyá Ìsàmì foram traduzidas erradamente e distorcidas para Pai Pequeno e Mãe Pequena devido ao fato de um Padrinho ou Madrinha estarem para o iniciado abaixo do seu Zelador ou Zeladora hierarquicamente falando, são tidos como Pais Menores, de Pai Menores foram tidos como Pais Pequenos uma vez que se é um Pai Menor é um Pai Pequeno. Portanto o correto é serem chamados de Padrinho e Madrinha, o que não tira sua autoridade sobre o inicado e respeito que o mesmo deve ter para com eles, pois continuam imediatamente abaixo do Zelador ou Zeladora na vida do iniciado.